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7.7.15


Uma fogueira é sempre uma celebração entre o ar e outra matéria. 
Vem. Vamos arder nos braços um do outro. Depois, as cinzas hão-de espalhar-se pela memória desta noite. 

 ~ Joaquim Pessoa


Pintura : António de Oliveira Nunes

2.6.15

Chama


"... A chama queima. O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas...tem de ser...
Amor?...- chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa."

~ Manuel Bandeira


Pintura : António de Oliveira Nunes

25.4.15

25 de Abril


Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

~ Sophia de Mello Breyner Andresen


Pintura : António de Oliveira Nunes

3.4.15

Páscoa


O momento é de renascimento
O momento é de mudança
Então que nesta Páscoa, mais do que religiões, busquemos
incessantemente por verdadeiras auto-reedições.

~ Danielle Antonacci


Pintura : António de Oliveira Nunes

2.4.15

E hoje é já outro dia


Eu amo tudo o que foi 
Tudo o que já não é 
A dor que já não me dói 
A antiga e errônea fé 
O ontem que a dor deixou 
O que deixou alegria 
Só porque foi, e voou 
E hoje é já outro dia. 

~ Fernando Pessoa


Pintura : António de Oliveira Nunes

25.3.15

Corpo habitado


"Corpo para beber até ao fim -
 meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação,
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação."

 ~ Eugénio de Andrade


Pintura : António de Oliveira Nunes

22.2.15

Quitandeira

"... Tudo tenho dado. 

Até mesmo a minha dor 
e a poesia dos meus seios nus 
entreguei-as aos poetas. 

Agora vendo-me eu própria. 
- Compra laranjas minha senhora ! 
leva-me para as quitandas da vida 
o meu preço é único : 
- sangue. 

 Talvez vendo-me eu me possua. 

 - Compra laranjas !"

~ Agostinho Neto


Pintura : António de Oliveira Nunes

2.1.15

Feliz Ano Novo !



Pintura (inacabada) : António de Oliveira Nunes

Todo o dia é ano novo.

Todo dia é ano novo
Entre a lua e as estrelas
num sorriso de criança
no canto dos passarinhos
num olhar, numa esperança...
Todo dia é ano novo
na harmonia das cores
na natureza esquecida
na fresca aragem da brisa
na própria essência da vida.
Todo dia é ano novo
no regato cristalino
pequeno servo do mar
nas ondas lavando as praias
na clara luz do luar...
Todo dia é ano novo
na escuridão do infinito
todo ponteado de estrelas
na amplidão do universo
no simples prazer de vê-las
nos segredos desta vida
no germinar da semente.
Todo dia é ano novo
nos movimentos da Terra
que gira incessantemente.
Todo dia é ano novo
no orvalho sobre a relva
na passarela que encanta
no cheiro que vem da terra
e no sol que se levanta.
Todo dia é ano novo
nas flores que desabrocham
perfumando a atmosfera
nas folhas novas que brotam
anunciando a primavera.
Você é capaz, é paz
É esperança
Todo dia é ano novo
no colorido mais bel
o dos olhos dos filhos seus...
Você é paz, é amor a alegria de Deus.
Não há vida sem volta
e não há volta sem vida
no ciclo da natureza
neste ir e vir constante
No broto que se renova
na vida que segue adiante
em quem semeia bondade
em quem ajuda o irmão
colhendo felicidade
cumprindo a sua missão.
Todo dia é ano novo...portanto...feliz ano novo todo dia!

 ~ Autor desconhecido


12.12.14

"Amor anoitecido vem
tecer-me um vestido
nocturno"

~ Luiza Neto Jorge


Pintura : António de Oliveira Nunes


25.4.14

Manhã Futura



Era preciso agradecer às flores 
Terem guardado em si, 
Límpida e pura, 
Aquela promessa antiga 
Duma manhã futura. 


~ Sophia de Mello Breyner Andresen 


 Desenho : António de Oliveira Nunes

18.4.14

You are welcome to Elsinor


Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos a morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras,
surdamente, as mãos e as paredes de Elsinor

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny

Pintura : António de Oliveira Nunes
Foto : André Ferrari